O brasileiro que virou referência em antropologia da informática nos EUA para ter impacto maior no Brasil

- Alexandre Pingo - - 15 de janeiro de 2019 | - 11:47 - - Home » Educação - - Sem Comentários

Hoje com 33 anos, David Nemer é referência em antropologia da informática, que estuda como a tecnologia transforma comunidades. Autor do livro “Favela digital”, ele já realizou projetos com Google, Microsoft e Intel, e viu sua pesquisa sobre internet em Cuba virar política pública neste mês. Mas, quando era apenas vestibulando no Espírito Santo, tinha mais dúvidas do que certezas em relação à carreira que queria seguir. Tanto é que acabou começando – e terminando – duas faculdades ao mesmo tempo.

(David Nemer é o primeiro entrevistado na série “Trabalhar no exterior”, do Guia de Carreiras do G1, que mostra a trajetória e as dicas de quem fez a graduação no Brasil e hoje segue carreira de sucesso no exterior.)

Graduado em ciências da computação pelo Centro Universitário Faesa e em administração pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o capixaba mora desde 2010 em Lexington, nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade do Kentucky.

“Resolvi fazer as duas pra ver. Uma hora ia ter que escolher uma. Foi passando o tempo, foi passando o tempo, não consegui escolher uma, quando fui ver já estava escrevendo uma monografia pra cada, e consegui me formar nas duas”, disse.

Ele afirma ainda que, quando saiu do país para continuar os estudos, já imaginava que não retornaria.

“Não sabia que acabaria como professor”, disse Nemer. “Mas eu sabia que queria ficar fora. Aqui eu consigo realmente ter acesso a empresas para justamente continuar minhas pesquisas no Brasil, para ter um impacto maior no Brasil. Eu não acho que eu teria a capacidade de mudança que eu já tive se eu tivesse ficado no Brasil.”

Dicas de David Nemer para seguir carreira acadêmica no exterior:

  • Fazer iniciação científica na graduação
  • Participar de atividades extracurriculares na graduação
  • Investir no aprendizado do inglês, de preferência incluindo um intercâmbio
  • Pesquisar bastante por programas de pós-graduação
  • Manter alta produtividade acadêmica

Habilidades necessárias para morar fora, segundo ele:

  • Capacidade grande de resolução de problemas, para começar uma vida do zero sem contatos a quem pedir favores
  • Independência e autonomia para lidar com a ansiedade social, conseguir fazer amigos e lidar com a saudade
 

A importância da iniciação científica

Nemer colou grau nos dois cursos em 2006, mas seu planejamento de carreira profissional começou a ser moldado no meio da faculdade, quando ele descobriu a vontade de seguir dentro do meio acadêmico e o interesse por estudar no exterior.

“Eu já estava com essa vontade de morar fora justamente para ter uma experiência. Também pela questão da valorização que as universidades estrangeiras sempre tiveram. E para ter algum tipo de conhecimento novo, acesso a coisas novas que no Brasil não tinha.”

O que fez diferença na carreira de Nemer não foram as aulas da graduação, mas sim os dois projetos de iniciação científica nos quais ele se envolveu durante o curso de ciências da computação. Não só para dar um “gostinho” da vida acadêmica ao então estudante de graduação, mas também para incrementar seu currículo.

“Acho que nota sempre vai ajudar, mas o que conta mesmo são as atividades extracurriculares que você engaja.” – David Nemer

Além dos projetos de pesquisa, ele também participou de projetos de inclusão digitais vinculados à Faesa. “A gente ajudava comunidades carentes, dava aula de computação básica, e eu também fazia monitoria para ajudar os alunos. Essas atividades que despertaram mesmo o interesse do pessoal. Ao olharem meu currículo, viram que eu poderia ser um candidato forte a fazer um mestrado lá fora.”

Mestrado na Alemanha

Os Estados Unidos eram a primeira opção para o capixaba, que foi intercambista no ensino médio em Indiana. Mas, durante a pesquisa que fez atrás de universidades e programas de pesquisa, uma questão o demoveu da ideia de fazer o mestrado lá: dinheiro.

“Nos Estados Unidos o mestrado é pago e é caro”, disse ele. Os custos estimados variam entre 60 mil e 75 mil dólares. “Aí eu vi na Europa onde o mestrado é de graça.” Nemer acabou escolhendo a Alemanha que, segundo ele, é o segundo país mais forte na área da computação, que ele decidiu seguir.

A outra vantagem era o fato de que o mestrado era em inglês, língua que ele já dominava – apesar da exigência de completar e ser aprovado em um curso básico de alemão.

A pós-graduação em engenharia de software que ele começou na Universidade Saarland, na cidade de Kaiserslauten, não incluía bolsa de estudos ou ajuda de custo. Entretanto, a vaga vinha atrelada a um emprego remunerado como pesquisador no Instituto Fraunhofer.

Mesmo com essa garantia de que poderia pagar para viver na Europa, ele vendeu o carro e usou as economias do Brasil e se mudou para a Alemanha com um visto de estudante que permitia trabalhar em sua área de estudo, desde que mantivesse o vínculo universitário.

Mudança de foco no doutorado

O mestrado em engenharia de software, porém, deixou o brasileiro desiludido, já que o aprofundamento era muito mais na parte técnica, e Nemer se interessava mais pela inclusão digital que ele viu na graduação. Esse impasse ele resolveu na etapa seguinte de sua carreira, onde teve a oportunidade de escolher entre ir direto para o mercado de trabalho ou se manter dentro do âmbito acadêmico.

“Vi que ali eu não queria continuar. Então vi no doutorado a oportunidade de mudar de campo um pouco e focar em uma coisa que eu gostasse mais”, explicou ele, que começou a buscar programas de PhD nos Estados Unidos. Diferentemente no nível de mestrado, as vagas no doutorado, nos EUA, costumam vir atreladas a uma bolsa de estudos ou a um trabalho de assistente de um professor nas aulas ou no laboratório.

Foi assim que, em 2010, o capixaba desembarcou novamente no estado de Indiana, onde fez intercâmbio. “Fiz o doutorado no departamento de informática, o foco mesmo era na antropologia da informática.”

76 candidatos para a vaga de professor

O passo seguinte na carreira de Nemer foi uma combinação dos anos de preparação e um golpe de sorte. Em 2015, quando terminou seu PhD, o brasileiro começou a enviar seu currículo para vagas de professor em universidades americanas. Segundo ele, o processo para trabalhar em universidades públicas é distinto: “É como se você fosse mandar currículo para uma empresa. Não existe concurso.”

Mesmo assim, as instituições têm processos seletivos transparentes. Por isso, ele sabe que, para a vaga de professor no departamento de informática da Universidade de Kentucky, um total de 76 candidatos tentaram ser contratados. No fim, a instituição optou pelo brasileiro.

O motivo, segundo ele, foi o interesse da universidade em ter um professor que pesquisasse a área de antropologia da informática. Em seu currículo, além do doutorado, Nemer também tinha uma série de produções acadêmicas, inclusive a publicação do livro “Favela digital”, que fez parte de sua pesquisa sobre desigualdade social no Espírito Santo.

“Quando entrei como professor nem precisei fazer um pós-doutorado”, explicou ele. “Muita gente não consegue vaga de professor, logo em seguida eles fazem um pós doutorado para ver se conseguem mais publicações, para depois tentar uma vaga de professor.”

As vantagens e desvantagens de morar fora

Entre a Alemanha e os Estados Unidos, David afirma que morar na América do Norte é mais fácil para um brasileiro, tanto pela facilidade linguística maior com o inglês quanto pela abertura dos americanos, que é um pouco maior do que a dos alemães.

Mas ele nega o senso comum de muitas pessoas que, segundo ele, acham que morar fora é ter uma vida fácil. “É pesado. Os Estados Unidos são muito orientados ao trabalho. Aqui não tem férias, pela lei não tem licença-maternidade, depende muito das empresas”, explicou ele.

Além disso, ele afirma que começar uma vida sozinho em outro país exige um grande esforço de independência para lidar com a saudade, para fazer amigos e para resolver problemas sem contar com favores.

“Já ‘morri’ muito de saudades nos primeiros anos na Alemanha. Apesar de a saudade não diminuir, a gente aprende, a gente amadurece. O que muda é como a gente gerencia a saudade. Mas se for aquela saudade à flor da pele, a gente não vive aqui. Não tem como gerenciar duas vidas, uma aqui e outra no Brasil.”

O Brasil lá fora

Apesar de viver em uma cidade nos Estados Unidos onde encontra poucos brasileiros (principalmente quando vai à churrascaria local), o capixaba diz que não sofre muita falta de produtos da terra natal porque a comunidade brasileira é grande. Além do churrasco, ele também citou o açaí congelado que consegue comprar por lá.

Mas não é só nas refeições que ele se mantém próximo do Brasil: Nemer dedica sua pesquisa também para a promoção de melhorias no acesso e desenvolvimento de tecnologias nas comunidades brasileiras.

“Eu tenho isso como dever. Por exemplo, trazer o Brasil para a literatura principal do meu campo. O Brasil ainda é mal representado nos estudos de tecnologia e ciência. Então esse é um dos meus objetivos, de manter o Brasil como meu campo de pesquisa, e até também para trazer uma mudança”, afirmou o pesquisador.

Um dos feitos dele foi convencer o Google a focar somente no Brasil uma pesquisa que seria mundial sobre o assédio que as mulheres sofrem nas redes sociais. Um dos produtos da pesquisa, dirigida por Nemer, foi a criação de um “botão do pânico” em aplicativos que o Google vendeu para o Uber, e que atualmente está em fase de testes.

Fonte: G1

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